Antônio Amaury: O homem que escreveu o Sertão
Foto: Divulgação A Casa da Cultura de Paulo Afonso amanheceu diferente. Parecia respirar mais fundo, como quem se prepara para receber um amigo querido que, embora não esteja mais presente em carne e osso, permanece vivo na memória de todos. Era dia de homenagear Antônio Amaury, o homem que fez do cangaço não apenas tema de pesquisa, mas missão de vida, de alma e de compromisso com a história do povo sertanejo.

Antônio Amaury, mesmo vivendo tão longe — lá em São Paulo — fez do Nordeste sua morada intelectual. Deu passos firmes no chão quente da caatinga, navegou por estradas de poeira e lembranças, e cruzou fronteiras estaduais atrás de relatos que poucos tiveram coragem ou sensibilidade de buscar. Entrevistou mais de quarenta cangaceiros e mais de cinquenta volantes e coiteiros. Escutou histórias duras, outras emocionadas, algumas quase sussurradas por quem carregava a vida marcada pelo destino brutal daqueles tempos. E transformou esse imenso tesouro oral em livros, documentários, orientações para cineastas, registros que hoje servem de base a todos que ousam estudar o universo fascinante e trágico do cangaço.

Por isso, quando os escritores e pesquisadores, Luiz Rúben e Sandro Lee organizaram o grande evento — com o apoio dedicado da Secretaria de Cultura de Paulo Afonso, o seu secretário, Merson e toda sua equipe — não estavam apenas montando uma exposição. Estavam abrindo espaço para que a memória de Antônio Amaury circulasse livre, como vento de tarde no Sertão. E circulou.

Os convidados especiais — Gilmar Teixeira, João de Sousa Lima e Marcos Antônio — trouxeram suas palavras como quem traz água fresca de um pote antigo. Falaram da importância de Amaury, de sua generosidade como pesquisador, de sua paciência e rigor, do brilho que ele deixou no universo da literatura sertaneja. Cada fala era como reacender um candeeiro: luz sobre a história, luz sobre o homem.

E foi bonito ver a força da cultura reunida: as Academias de Letras de Paulo Afonso, Santa Brígida, Piranhas, ABRAES, ABLAC… todas ali, lado a lado, como irmãs de propósito. Escritores como Robério Santos, Jorge Henrique, Professor Nery, Zé Ivaldo, Luma Holanda, Célia Maria, Jaqueline Rodrigues; o YouTuber José Francisco; leitores apaixonados; estudantes e pesquisadores atentos. Uma constelação inteira reunida por um só nome: Antônio Amaury.

Entre livros sorteados de Luiz Rúben e cordéis de Maria Paraibana e Célia Maria, o clima era de festa boa, daquela que o povo sai comentando e levando no coração. Um evento completo: memória, cultura, literatura, afetos.

E a exposição? Continua até o dia 4 de dezembro. Quem ainda não foi, vá. Porque ali, entre fotografias, documentos, objetos e lembranças, está um pedaço precioso da história do Nordeste — e o legado de um homem que não deixou o cangaço morrer em silêncio.

Antônio Amaury partiu, mas sua voz continua ecoando. E ecoará sempre, enquanto houver gente disposta a contar, ouvir e honrar as histórias que moldaram o Sertão. Hoje, na Casa da Cultura, esse eco se transformou em celebração. E todos que estiveram lá sentiram: Antônio Amaury segue presente, guiando cada pesquisador, cada leitor e cada sertanejo que sabe que lembrar é um ato de amor.

* Gilmar Teixeira




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