José Ivandro
Entre progresso e memória: Ponte Metálica D. Pedro II completou 64 anos
A ponte Dom Pedro II mudou o destino de Paulo Afonso e da Região
DivulgaçãoSímbolo de integração regional e uma das obras mais emblemáticas do sertão nordestino, a Ponte Metálica D. Pedro II transformou a mobilidade entre Bahia e Alagoas e entrou para a história de Paulo Afonso. Inaugurada em 21 de abril de 1960, após anos de construção e paralisações, a ponte nasceu cercada de expectativa popular e consolidou uma promessa feita pelo então candidato à Presidência da República, Juscelino Kubitschek.
Contexto
Antes da ponte, cruzar o Rio São Francisco naquela região era tarefa difícil. O acesso entre Bahia, Alagoas e outros estados nordestinos dependia de travessias em balsas, especialmente entre Glória, na Bahia, e Petrolândia, em Pernambuco. Viagens demoradas, filas, limitações no transporte de cargas e incertezas faziam parte da rotina de quem precisava seguir caminho.
A necessidade de uma ligação definitiva mobilizava moradores, comerciantes e lideranças políticas desde meados do século passado. As obras da ponte começaram no início da década de 1950, mas enfrentaram interrupções e longos períodos de paralisação, tornando-se motivo de frustração para a população, que via a estrutura inacabada sobre o cânion como símbolo de promessa não cumprida.
Foi nesse cenário que, em 1955, durante campanha presidencial, Juscelino Kubitschek passou por Paulo Afonso para um comício realizado na então Rua da Frente, atual Avenida Getúlio Vargas. No palanque, diante de uma multidão esperançosa, foi cobrado por um morador sobre a conclusão da ponte. JK respondeu afirmativamente: se eleito, terminaria a obra.

A promessa ficou na memória popular. Eleito presidente, Juscelino levou adiante seu ambicioso projeto nacional de desenvolvimento e infraestrutura. Cinco anos depois, cumpriu o compromisso assumido no sertão baiano. Em 21 de abril de 1960, no mesmo dia em que inaugurava Brasília, o Brasil também celebrava a entrega da Ponte D. Pedro II.
Na solenidade, o presidente foi representado por um emissário enviado por Juscelino Kubitschek. Durante todo o período de construção, o antigo Departamento Nacional de Estradas e Rodagens manteve funcionários e casas de apoio nas imediações da ponte, pelo lado baiano, demonstrando a dimensão estratégica da obra para a integração nacional. Somente no governo FHC, em 2001, o DNER foi extinto e as casas foram doadas aos funcionários remanescentes que ali ainda moravam.
A história da estrutura ganha ainda mais relevância com a informação que reforça seu valor patrimonial: a ponte foi projetada e fabricada na França pela Compagnie des Établissements Eiffel, uma das mais renomadas companhias especializadas em engenharia metálica do século XIX. A mesma tradição técnica da empresa está presente em obras icônicas como a Torre Eiffel, a Ponte Maria Pia e na estrutura interna da Estátua da Liberdade. Assim, a Ponte D. Pedro II carrega, em pleno sertão nordestino, uma herança da engenharia mundial.
A partir dali, Paulo Afonso ganhou uma nova dimensão econômica e social. A estrutura passou a ligar Paulo Afonso a Delmiro Gouveia, encurtando distâncias e integrando o Nordeste ao Sul, Sudeste e Centro-Oeste por via terrestre. Caminhões, ônibus, comerciantes, estudantes e famílias passaram a cruzar diariamente o trecho que antes dependia das águas do Velho Chico.
Com cerca de 240 metros de extensão e erguida a aproximadamente 86 metros acima do leito do rio, a ponte também se tornou um dos cenários mais marcantes da região. Da sua estrutura metálica, avista-se a imponência do cânion do São Francisco, reforçando o valor turístico e afetivo do monumento.
Ao longo do tempo, porém, a ponte também se tornou palco de episódios dolorosos ligados a pessoas em sofrimento emocional. Casos de suicídio registrados no local marcaram a memória coletiva e despertaram na comunidade um sentimento permanente de alerta e solidariedade. O tema mobiliza moradores, autoridades e instituições que defendem medidas de prevenção, acolhimento psicológico, barreiras de proteção e campanhas de conscientização.

Assim, a Ponte Metálica D. Pedro II reúne sentimentos distintos. É lembrada como obra que venceu o isolamento regional, como promessa cumprida por um presidente e como patrimônio histórico de Paulo Afonso. Mas também lembra a importância de cuidar das pessoas e de fortalecer redes de apoio à saúde mental. Entre ferro, concreto e memória, a ponte segue ligando margens, e histórias humanas.
Fonte: Historiador João de Souza Lima, Jornal folha Sertaneja (@jornalfolhasertaneja.oficial), e blog do Assis Ramalho (blogdoassisramalho)





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