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Paulo Afonso,01/05/2026

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Aldo Carvalho

Neutralidade não existe: até o silêncio é político

IA GPT
Neutralidade não existe: até o silêncio é político O Isentão, neutro na politica

Volta e meia alguém solta, com ares de superioridade moral e alma lavada: “não gosto de política”. Diz como quem afirma não gostar de coentro ou de filme legendado. A frase vem escoltada por uma pretensa neutralidade, como se fosse possível viver em sociedade em “modo avião”, sem interferência das disputas que definem quem vive bem, quem vive mal — e quem nem vive.

Mas sejamos honestos: declarar que “não gosta de política” não é fugir dela. É tomar posição. E das mais confortáveis. A política não some porque alguém decidiu ignorá-la; ela apenas segue operando — sem pedir licença — e geralmente em favor de quem nunca precisou gostar dela para sair ganhando.

Convém lembrar o óbvio (que anda bem escasso): política não é só partido, eleição ou aquele escândalo reciclado do jornal das oito. Política é decidir onde vai o dinheiro público, quem terá acesso a direitos, quem será ouvido e quem continuará falando sozinho. Política é escolher prioridade. E toda prioridade, por definição, deixa alguém de fora.

Nesse cenário, o silêncio não é neutro. É cúmplice. É uma escolha travestida de abstinência moral. Quem se abstém não suspende o jogo — apenas transfere o apito para outros. Não é ausência de política; é adesão passiva ao script dominante. Neutralidade aqui se chama conformismo, mas com nome mais limpinho.

A mesma ginástica retórica aparece quando alguém tenta encerrar uma conversa com o clássico: “isso é ideológico”. O subtexto é sempre o mesmo: “você fala desde um lugar contaminado; eu, por algum milagre intelectual, falo do Olimpo da razão pura”. É quase comovente.

Toda fala é ideológica. Toda. Inclusive — e especialmente — a que se diz técnica, pragmática ou “apenas realista”. Não existe pensamento em estado bruto, embalado a vácuo, livre de valores, interesses e escolhas morais. Até defender que “as coisas são como são” já é uma forma bastante eficiente de legitimar como elas estão.

Aliás, a neutralidade costuma ser a ideologia mais bem-sucedida justamente porque se disfarça de ausência de ideologia. Ela não grita, não se assume, não se explica. Apenas naturaliza desigualdades, transforma decisões políticas em “dados da realidade” e empurra conflitos éticos para debaixo do tapete técnico. O que poderia ser debatido vira fatalidade. O que poderia ser escolha vira “não tem jeito”.

Não é coincidência histórica. Sempre que injustiças ficam grandes demais, aparece alguém muito sensato explicando que “não é hora de politizar”. Tradução simultânea: não é hora de questionar quem se beneficia do estado atual das coisas. Em cenários de desigualdade, fingir que não escolhe é escolher — quase sempre a favor de quem já está no topo e prefere o silêncio como aliado.

Isso não significa que ideologia seja sinônimo de mentira, manipulação ou lavagem cerebral, como o debate raso costuma sugerir. Ideologia é condição humana. O risco não está em tê-la, mas em negá-la. Em não assumi-la. Em não colocá-la sob crítica. A ideologia mais perigosa é aquela que se apresenta como bom senso universal, como técnica neutra ou como simples “realismo responsável”.

Dizer que toda posição é política e toda fala é ideológica não radicaliza o debate — qualifica. Devolve peso às palavras e responsabilidade às escolhas. Afinal, o mundo que habitamos não caiu do céu: é resultado de decisões tomadas, disputas vencidas e, sobretudo, de muitos silêncios bem-comportados.

Em tempos de democracia cansada, cidadania anestesiada e WhatsApp elevado à categoria de fonte confiável, reconhecer isso não é preciosismo teórico. É exigência ética mínima. Porque não se posicionar não nos coloca acima da política.

Apenas nos instala, confortavelmente sentados, no banco dos que assistem — enquanto outros decidem.

E isso, goste ou não, também é política.



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