Aldo Carvalho
Um raio e a sinalização da irresponsabilidade
Momento em que Raio atinge o solo durante manifestaçãoHá acontecimentos que não podem ser tratados como incidentes fortuitos, muito menos como acidentes inevitáveis. Quando alertas meteorológicos são emitidos, quando o risco elétrico é público e conhecido, e ainda assim pessoas são conduzidas deliberadamente a se expor, o que ocorreu deixa de ser acaso e passa a ser escolha. E escolhas têm responsáveis.
Ninguém foi pego de surpresa. Houve avisos, previsões claras e dados técnicos suficientes para recomendar prudência. Ainda assim, optou-se por manter pessoas sob intensa chuva e instabilidade atmosférica, como se a realidade pudesse ser suspensa por retórica ou entusiasmo. Isso não é bravura, nem convicção: é descaso. Não é demonstração de compromisso, mas desprezo pela segurança alheia.
Transformar corpos humanos em pano de fundo para uma encenação pública, ignorando riscos concretos, revela uma lógica perversa: a de que a integridade das pessoas é secundária frente à preservação de uma imagem, de uma narrativa ou de um espetáculo. Quando a segurança é sacrificada em nome de visibilidade, a liderança se dissolve e dá lugar a uma gestão irresponsável do risco.
O raio, como a ciência já demonstrou exaustivamente, não distingue intenções nem discursos. Ele atinge quem está exposto. Trabalhadores, jovens, idosos — pessoas comuns que confiaram que alguém havia avaliado as condições mínimas de segurança. Quem convoca, organiza ou mantém pessoas em situação de perigo assume o dever de protegê-las. Ignorar esse dever não é erro técnico; é falha moral.
O verdadeiro lamento é pelas pessoas feridas, pelas famílias tomadas pela angústia e pelo trauma de terem sido colocadas em risco desnecessariamente. A indignação, porém, precisa alcançar quem decidiu relativizar alertas objetivos, tratando previsões e protocolos como obstáculos inconvenientes a serem descartados.
Não se constrói nada legítimo à base da imprudência. Não se exerce liderança expondo terceiros ao perigo evitável. E não há causa que justifique transformar alertas de segurança em meros detalhes descartáveis.
Critério, lucidez e responsabilidade não são opcionais: são o mínimo. Antes que novas decisões equivocadas voltem a colocar vidas sob uma ameaça anunciada, é preciso reafirmar o óbvio — ninguém deveria ser convocado a enfrentar riscos previsíveis para sustentar encenações que se desmancham ao primeiro trovão.





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