Gilmar Teixeira
Alcivandes Santana e a História que Saiu da Sala
Alcivandes SantanaHá amigos que caminham conosco por fases. E há aqueles que caminham por toda a vida, mesmo quando a distância insiste em testar o tempo. Alcivandes Santana era desses. Nosso encontro começou ainda no colégio, quando a juventude não tinha medo de sonhar alto nem de enfrentar a dureza dos dias. Éramos estudantes e já éramos resistência. No movimento estudantil, na luta contra a ditadura militar, aprendemos cedo que a história não é neutra — ela escolhe lados, e nós escolhemos o do povo.
Vieram depois as batalhas eleitorais em Paulo Afonso, a tentativa de transformar indignação em projeto, esperança em voto. Lutávamos para eleger companheiros de caminhada, acreditando que a política também podia ser um gesto de amor coletivo. A vida, como sempre, tratou de nos levar por estradas diferentes. Fomos estudar em cidades distintas, mas Alcivandes jamais se afastou do que realmente importava: o compromisso com a história.
Ele se tornou professor de História no sentido mais profundo da palavra. Não aceitava que o conhecimento ficasse preso às paredes da sala de aula. Foi pioneiro em fazer o estudante calçar os pés na estrada, sentir o pó do chão, olhar o lugar onde os fatos aconteceram. Para Alcivandes, a história precisava ser vista, tocada, respirada. O aluno precisava reconhecer o próprio rosto no espelho do passado.
Em Paulo Afonso e, sobretudo, em Santa Brígida, ele plantou esse jeito novo — e ao mesmo tempo tão antigo — de ensinar. Santa Brígida não foi apenas um local de trabalho; foi escolha de vida. Terra de misticismo, de fé viva, de silêncios carregados de sentido. Ali, Alcivandes mergulhou fundo na história do conselheiro Pedro Batista, considerado santo por seu povo. Não com o olhar frio do pesquisador distante, mas com o respeito de quem entende que a fé também é documento histórico.
Pesquisou, escreveu, publicou. Deu forma acadêmica ao que antes era apenas tradição oral. Registrou Pedro Batista, deu continuidade à memória com a Madrinha Dodô, sucessora espiritual e figura central da religiosidade local. Fez o mesmo com o cangaço em Santa Brígida, revelando que naquela terra também nasceram cangaceiros e volantes, como o lendário Mané Veio, personagem fundamental da história sertaneja.
Mas Alcivandes não era só pesquisador. Era escritor, poeta, professor de almas. Um ser humano ímpar, desses que escutam mais do que falam e, quando falam, deixam rastro. Amava a família, a esposa, os filhos — sua maior paixão — e carregava no olhar uma mistura rara de doçura e firmeza.
Hoje, quando falamos de Alcivandes Santana, falamos de alguém que virou memória viva. Sua vida ocupa uma cadeira que não se esvazia: a Cadeira da Memória, onde verso e prosa se encontram para contar uma existência inteira dedicada à cultura nordestina. A Cadeira 27 não é apenas um número — é símbolo de saudade, gratidão e permanência.
Patativa do Assaré como patrono não foi acaso. Era destino, era missão. Cultivar a essência da cultura popular, valorizar o Sertão sem folclorizar, defender a verdade mesmo quando ela dói. Alcivandes fez isso até o fim, em Santa Brígida, sua morada definitiva e eterna paixão.
Agora, ele é estrela no céu literário. Vive nas páginas que escreveu, nos caminhos que abriu, nos alunos que ensinou a olhar o mundo com mais profundidade. Vive na ALPA, vive no Sertão, vive em nós.
Porque há pessoas que passam pela história.
E há outras que se tornam história.
Alcivandes Santana é dessas que não se despedem.
Apenas mudam de lugar —
do chão da estrada para a eternidade da memória.
* Gilmar Teixeira





COMENTÁRIOS
em 05/02/2026
Gilmar e uma belíssima homenagem ao saudoso Alcivandes.Um grande cidadão do sertão, um professor que foi muito além da sala de aula, progressista com massa crítica.Gilmar, como sempre, cirúrgico e profundo na sua escrita.Seus textos são para além de uma contação de histórias, é um deleite.