Gilmar Teixeira
Deus, que não cabe nas paredes de nenhum templo
Hoje, no intervalo do trabalho, entre uma tarefa e outra, o assunto voltou a ser religião — como tantas outras vezes. Meu amigo, pastor evangélico, firme em sua fé, fala com convicção, com brilho nos olhos de quem acredita no que vive. E eu respeito. Mas, ali, naquela mesma mesa, há colegas de todos os cantos do mundo espiritual: católicos, espíritas, umbandistas, candomblecistas, muçulmanos, ateus, agnósticos… um retrato fiel do Brasil que trabalha e convive junto, apesar das diferenças.
E, vez ou outra, surge alguém dizendo que Deus é propriedade desta ou daquela religião. Foi aí que precisei abrir a boca e lembrar, como sempre faço:
— Deus não tem religião. Deus é de todos.
Não é teologia, não é tese, não é discurso. É só a simples verdade que qualquer coração sincero consegue sentir. Se Deus é o Criador de tudo, como poderia caber numa única placa? Como poderia se limitar a um único dogma, se Ele é maior até que o próprio entendimento humano?
Deus está nos cânticos do candomblé, está na oração trêmula do cristão, está no silêncio profundo do islâmico em seu tapete, está na dança dos povos indígenas, no mantra hindu, aos que ajoelha pra Buda, aos que fazem romarias prá Padre Cícero, e até o gesto solidário de quem nem acredita n’Ele — mas faz o bem porque sente que deve.
Deus está onde há bondade. E só isso já deveria bastar.
Mas nem sempre basta.
No mundo lá fora, e até nos corredores do trabalho, ainda vemos gente brigando para provar que o “seu” Deus é mais certo que o do outro. E quantas guerras, quantos muros, quantos corpos já caíram por causa dessa disputa que Ele nunca pediu?
As religiões nasceram para guiar, para iluminar, para unir. Mas o homem, impaciente e orgulhoso, às vezes transforma aquilo que deveria ser ponte em arma, aquilo que deveria ser abraço em muro.
E então oramos, pedimos paz, e esquecemos de que somos nós mesmos que plantamos a discórdia.
Deus, esse que todos tentam definir, não cabe nas linhas estreitas das nossas interpretações.
Ele não é mais amigo dos cristãos, mais simpático aos espíritas ou mais tolerante aos umbandistas. Ele não rejeita quem trilha um caminho diferente da Bíblia, do Alcorão, do Torá, do Evangelho ou de qualquer livro sagrado.
Porque Deus é amor. E o amor, quando é verdadeiro, não escolhe endereço.
Ele é colo para os desamparados, luz para os perdidos, abrigo no dia de dor. Ele está presente quando fechamos os olhos e pedimos por paz, quando a vida pesa e não encontramos saída. Ele se coloca ao lado, silencioso, não importa a cor da nossa roupa, a religião que professamos ou a que nunca adotamos.
Somos nós, humanos, que complicamos. Que segregamos. Que afastamos. Que decidimos quem merece ou não merecer Deus — e, ao fazer isso, nos afastamos justamente Dele.
Porque Deus não cabe em templos.
Não cabe em placas.
Não cabe em fronteiras.
Não cabe em rótulos.
Deus cabe é no coração — esse templo que ninguém vê, mas Ele enxerga de longe.
Quando finalmente abandonarmos as lentes da religião e começarmos a enxergá-Lo com os olhos do amor, compreenderemos a verdade mais simples e mais antiga que existe:
Deus não tem religião.
Deus tem filhos.
E cuida de todos.
* Gilmar Teixeira





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