Gilmar Teixeira
O Basta que Não Pode Esperar
Gilmar TeixeiraO dia ainda nem clareou direito, e já há uma notícia ruim correndo solta pelos celulares, pelos rádios ligados na cozinha, pelas televisões que insistem em repetir o mesmo enredo. Mais uma mulher. Mais uma vida interrompida. Mais uma família dilacerada. E, como se fosse rotina, a cidade segue seu curso — ônibus cheios, comércio abrindo, gente apressada — enquanto a dor de alguém ecoa em silêncio.
A verdade é dura: o feminicídio deixou de ser exceção e passou a ser presença constante. Está nos bairros simples e nas áreas nobres, nas casas pequenas e nos apartamentos luxuosos. Não escolhe cor, classe ou profissão. E o mais assustador é que, pouco a pouco, fomos nos acostumando a ouvir sobre isso como quem escuta a previsão do tempo.
Mas não é chuva passageira. É tempestade que arranca vidas.
Cada caso não é apenas um número a mais em estatísticas frias. É uma cadeira vazia à mesa, um quarto que não será mais ocupado, um abraço que nunca mais será dado. É uma história interrompida à força, marcada pela violência de quem deveria proteger — ou, no mínimo, respeitar.
E então surge a pergunta que insiste em não calar: até quando?
Até quando vamos assistir a tudo isso como espectadores? Até quando as autoridades vão se esconder atrás de relatórios e discursos prontos, enquanto a realidade grita nas ruas? As leis existem, é verdade. Mas, sem ação firme, sem proteção efetiva, elas se tornam apenas palavras escritas, incapazes de impedir o pior.
Há algo ainda mais doloroso: o silêncio. O silêncio que protege o agressor, que normaliza a violência, que transforma a indignação em esquecimento. Esse silêncio também mata.
É preciso romper.
Romper com a indiferença, com o medo de denunciar, com a falsa ideia de que “isso não é problema meu”. Porque é, sim. É problema de todos nós. Uma sociedade que permite que suas mulheres sejam violentadas está, na verdade, adoecendo por inteiro.
Chega de luto sem mudança. Chega de promessas que nunca saem do papel. Chega de fingir que não vemos.
É hora de agir — de cobrar, de denunciar, de proteger, de educar. É hora de transformar a dor em voz, e a voz em ação concreta. Não basta se comover; é preciso se posicionar.
Porque cada vida importa. Cada mulher importa.
E o basta, esse basta que ecoa há tanto tempo, não pode mais ser adiado. Ele precisa deixar de ser palavra e virar atitude — agora, antes que outra história seja interrompida, antes que mais uma família aprenda, da pior forma, o peso irreparável da ausência.
* Gilmar Teixeira




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