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Paulo Afonso,03/04/2026

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Gilmar Teixeira

Guilherme Machado: O homem que guarda o tempo

Gilmar Teixeira
Guilherme Machado: O homem que guarda o tempo Guilherme Machado

Há pessoas que passam pela vida… e há aquelas que decidem não deixar o tempo passar. Guilherme Machado é dessas raridades.


Conheci Guilherme há muitos anos, quando ainda carregávamos mais sonhos do que certezas. No início dos anos 90, fiz talvez o primeiro documentário sobre ele — e já ali havia algo diferente: não era apenas um homem, radialista, vendedor de móveis,  pesquisador, escritor, e colecionador,  é portador de uma missão em forma de gente. Depois veio a reportagem com minha filha, Louise Farias, ainda no SBT. O tempo seguiu seu curso — como sempre faz — e ela voltou, anos depois, já pela Globo, para entrevistá-lo novamente. E ali estava Guilherme… o mesmo. Ou melhor: maior.


Trinta anos se passaram. E, enquanto muitos envelhecem, Guilherme acumulou história.


Não a história dos livros apenas, mas a que se toca, se vê, se escuta.


Em Serrinha, ele decidiu enfrentar o maior dos desafios: preservar a memória em um país que tantas vezes esquece. E fez isso com as próprias mãos. Comprou terreno, levantou paredes, organizou sonhos. E assim nasceu o seu templo — dividido em três altares: o rádio, o cangaço e o rei do baião, Luiz Gonzaga.


Entrar no museu de Guilherme é como atravessar portais do tempo.


Na sala dos rádios, são centenas — vozes silenciosas que um dia narraram o mundo. Cada aparelho guarda ecos de notícias, novelas, canções e emoções de um Brasil que ainda aprendia a se ouvir.


No espaço dedicado a Gonzaga, o couro, a sanfona, o chapéu, seus discos — tudo parece pulsar. Não é apenas exposição; é reverência. É como se o som do fole ainda estivesse no ar, contando histórias de seca, de amor e de resistência.


E no museu do cangaço… ali mora o sertão em sua forma mais crua e verdadeira. Não o mito romantizado, mas a história viva, feita de luta, sobrevivência e identidade.


Tudo isso erguido por um homem só — mas que nunca esteve sozinho. Ao seu lado, a família. A esposa, Josefa Santos, os filhos, todos igualmente tomados por esse amor profundo pela cultura nordestina. Porque ninguém sustenta um sonho desse tamanho sem raízes firmes.


O museu, localizado na Rua José Martins, em Serrinha,  não é apenas um espaço físico. É um ato de resistência. Um grito silencioso dizendo que o Nordeste não será esquecido.


E talvez Guilherme nunca tenha dito isso em palavras. Mas suas ações falam alto.


Ele não coleciona peças. Ele coleciona memórias.

Não guarda objetos. Guarda identidades.

Não construiu um museu. Construiu permanência.


Num tempo em que tudo é rápido, descartável e superficial, Guilherme Machado decidiu ir na contramão: ele escolheu durar.


E por isso, mais do que aplausos, ele merece reconhecimento. Mais do que homenagem, merece ser contado — como parte da própria história que tanto lutou para preservar.


Porque, no fim das contas, há homens que vivem…

e há aqueles que fazem o tempo viver depois deles.


* Gilmar Teixeira



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